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Startups deixam de avançar na governança conforme crescem, aponta pesquisa


As startups brasileiras tem um bom início em termos de governança corporativa logo após serem fundadas, mas deixam de evoluir essa estrutura conforme crescem e buscam se posicionar no mercado, aponta uma pesquisa da consultoria PwC Brasil e da Liga Ventures, rede de inovação aberta que conecta empresas e startups, obtida pelo Estadão. A situação pode se tornar uma oportunidade, ao virar um diferencial para aquelas que buscam investimento se conseguirem melhorar no tema.


A pesquisa foi a primeira edição e ouviu 169 empreendedores e 37 investidores. As companhias foram divididas em quatro fases: ideação, validação, tração e escala, de acordo com o desenvolvimento de produtos e modelos de negócios até o momento de receber os investimentos para ocupar um espaço no mercado. Os pilares avaliados em cada fase foram quatro: Estratégia e Sociedade; Pessoas e recursos; Tecnologia e propriedade intelectual; e Processos e Accountability.


É esperado que nas duas primeiras etapas, a governança não seja muita evoluída, tanto de acordo com os investidores quanto com o framework utilizado, desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Porém, nas duas finais, os controles devem avançar para garantir que a empresa atraia recursos e utilize bem os que possui.


Dados positivos sobre as startups em fase de ideação foram que 83% adotaram uma rede de mentores e conselheiros, o que mostra que elas estão cada vez mais estruturadas no início. As que estão em fases de ideação e validação apresentam maturidade elevada em relação a algumas práticas sugeridas em Estratégia e Sociedade, estando acima das expectativas dos investidores para temas como Contribuição dos sócios; Expectativa de cada sócio; Regras de saída e/ou de entrada; Alçadas, papéis e responsabilidades; e Estatuto ou contrato social.


Porém, conforme as exigências aumentam para empresas maiores, as companhias deixam de cumprir as expectativas dos investidores. Um exemplo está no pilar Estratégia e Sociedade: 20% das startups na fase de Tração afirmam cumprir as práticas relacionadas aos temas Processo formal para estratégia e gestão de riscos, e Ética e conduta, mas os investidores esperavam no mínimo 41%.


No pilar de Pessoas e Recursos Humanos, as expectativas dos investidores superam os 46% em todas as práticas, mas as startups no momento de tração não atingem os requisitos esperados, cenário igual ao visto entre as que estão na fase de escala.


Em relação à Tecnologia e propriedade intelectual, a situação é ainda pior: 45% das startups na fase de tração têm baixo nível de maturidade e quase metade ainda adota práticas da fase de ideação, mesmo estando num estágio avançado de desenvolvimento. 25% das startups em estágio de escala não adotam nenhuma das práticas de governança corporativa associadas à tecnologia e propriedade intelectual.


Por fim, o pilar de Processos e Accountability tem resultados ambíguos: 82% das startups têm controles internos de apuração de resultado e 77% apresentam modelos de planejamento e gestão orçamentária estruturados. Por outro lado, práticas relacionadas ao relacionamento com Órgãos de fiscalização e controle complementares e Função/área de relacionamento com investidores permanecem com baixa maturidade de implementação.


Razões

A situação é explicada pelas startups serem empresas iniciantes. No início, espera-se que elas busquem primeiro desenvolver os produtos e um modelo de negócios sustentável antes de estruturar os processos de controle internos. Contudo, conforme ela cresce e vai se provando, essas estruturas são exigidas.


“É como um adolescente chegando à vida adulta”, compara Luiz Ponzoni, sócio da PwC Brasil. “Existe um choque no nível de governança corporativa exigida, resolver isso na fase de tração talvez seja um insight da pesquisa. Quando se chega na fase de tração, já é o momento de ter uma maior formalização.”


Começar a ter algumas estruturas nas fases iniciais é uma boa situação, ainda que não precisem ser tão evoluídas. Assim, é mais fácil trabalhá-las e adaptá-las ao mercado conforme cresce. “Lá na frente é muito mais doloroso estruturar, por ter que lidar com vícios que a entidade já adquiriu. A hora que começa a tração e a escala tem que melhorar, precisa parar e reacessar as políticas e procedimentos para corrigir problemas”, reforça Rodrigo Marcatti, também sócio da PwC Brasil.


Dentre esses temas, o relacionamento com investidores é uma prioridade - a fase de escala é a que as startups buscam mais recursos para ocuparem um espaço no mercado. Ainda assim, 38% dos investidores esperam que essa área seja um departamento próprio, o que só 16% das companhias dizem ter. “Estar tão baixo realmente foi surpreendente, por serem empresas que estão em fase de captação ou buscando. Ter essa área é um grande diferencial”, comenta Isadora Faria, gerente sênior da área de novos negócios da consultoria que realizou a pesquisa


“É uma questão de onde alocar os recursos. Há uma quantidade limitada e parte do relacionamento com investidores não é prioridade no início, ás vezes fica em segundo plano”, explica Marcatti. Tanto ele quanto Faria recomendam, no entanto, que a área seja estruturada o quanto antes.


Caminhos

A boa notícia para as startups que já chegaram nas fases de tração e escala é que, se ela chegou nessas etapas, provavelmente tem mais recursos para cobrir os gaps indicados na pesquisa, por já ter um produto e um modelo de negócios estabelecido. “Se antes ela focou nos aspectos comerciais, na luta pela sobrevivência, chega um momento em que precisa colocar ordem na casa”, afirma Ponzoni. “Será que precisa esperar tanto para resolver os problemas ou deveria olhar para resolver as expectativas dos investidores em alguns aspectos? Sempre há um momento crítico de virar a chave para esse patamar de governança super exigente”, destaca.


Para as que ainda estão nas fases iniciais, o estudo ajuda a indicar possíveis caminhos. Com a governança melhor preparada, torna-se mais fácil atrair investidores - ainda mais em um momento em que os recursos para as startups diminuíram. Nos três primeiros trimestres de 2022, os recursos investidos em startups atingiram US$ 3 bilhões, comparados aos US$ 9,1 bilhões registrados no mesmo período do ano passado, um ano atípico.


“Os investidores estão cada vez mais seletivos. Então, para as startups, volta no ponto da governança, num momento em que você precisa olhar para modelos de negócio mais sustentáveis, que demonstrem que a startup tem controle do investimento e capacidade de crescer, tudo começa a fazer diferença. Eles são mais seletivos em buscar as alternativas mais promissoras em ter um modelo de negócios sustentável”, avalia Faria.


Por ser a primeira publicação da pesquisa, não é possível comparar com os anos passados. Contudo, nos próximos anos, mais questões podem ser medidas, como forma de ajudar a avançar nas discussões. “Começamos a plantar agora para colher lá na frente. É um processo contínuo, sempre vai ter um novo tema”, projeta Marcatti.


Fonte: Estadão

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